Divórcio realizado no Brasil vale em Portugal?

O mundo mudou. As famílias também.

Hoje, é cada vez mais comum encontrar pessoas que nasceram num país, casaram noutro e vivem num terceiro.

Brasileiros que se casaram no Brasil, vieram para Portugal, e aqui construíram a sua vida. Ou que se divorciaram no Brasil, e só mais tarde perceberam que esse divórcio pode não produzir efeitos automáticos em Portugal.

Esta é uma realidade crescente. E com ela, crescem também as dúvidas, os processos e, inevitavelmente, os prazos.

Se você realizou um divórcio no Brasil e tem ou pretende ter alguma ligação jurídica a Portugal, seja por residência, por nacionalidade, por um novo casamento ou por qualquer outra razão, este artigo é para você.

1. O divórcio no Brasil é válido?

Sim. Um divórcio realizado no Brasil, de acordo com a lei brasileira, é um ato jurídico válido e plenamente eficaz em território brasileiro.

Isto significa que, perante as autoridades brasileiras, o seu estado civil é divorciado.

Os seus documentos brasileiros refletem essa realidade. E, para todos os efeitos no Brasil, o seu casamento está dissolvido.

Até aqui, tudo claro.

Divórcio realizado no Brasil vale em Portugal?

2. E em Portugal? O divórcio vale automaticamente?

É aqui que a resposta muda.

Em Portugal, um divórcio realizado no estrangeiro não produz efeitos automáticos.

 Não basta ter o documento do divórcio brasileiro para que ele seja reconhecido pelo ordenamento jurídico português.

Para que esse divórcio produza efeitos em Portugal, é necessário ingressar com um processo de reconhecimento de sentença estrangeira de divórcio, para assim, proceder ao averbamento do divórcio no registo civil português.

Sem esse averbamento, o seu estado civil em Portugal pode continuar a constar como casado, mesmo que em termos práticos o casamento já tenha sido dissolvido há anos.

E é precisamente esta discrepância que cria problemas. Muitas vezes silenciosos, mas com consequências reais.

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3. Quando é que esta situação costuma surgir?

Na maioria dos casos, você só se apercebe de que o divórcio não está averbado em Portugal quando você precisa de resolver outra coisa.

É nesse momento que o assunto chega ao conhecimento, muitas vezes de forma inesperada.

As situações mais frequentes são estas:

3.1.    Novo casamento em Portugal

Você quer casar novamente em Portugal?

Para celebrar um novo casamento, você precisa comprovar o estado civil atual.

No artigo, a Transcrição de casamento em Portugal: quando pode ser necessária, você poderá verificar o procedimento a ser feito em Portugal.

Se o divórcio brasileiro não estiver devidamente averbado em Portugal, o registo civil português pode não reconhecer a dissolução do casamento anterior.

O que impede, na prática, a celebração de um novo matrimónio.

Este é, provavelmente, o momento em que mais pessoas se deparam com esta situação pela primeira vez.

3.2.    Atualização documental

A atualização de documentos pessoais, como a obtenção de documentos de identificação portugueses ou a regularização da situação perante as autoridades competentes, pode exigir coerência entre o estado civil declarado e o que consta nos registos portugueses.

Uma divergência neste campo pode gerar complicações administrativas que atrasam processos que, à partida, pareciam simples.

Divórcio realizado no Brasil vale em Portugal?

3.3.    Processo de nacionalidade portuguesa

O processo de nacionalidade portuguesa é um dos momentos em que a coerência documental é analisada com mais detalhe.

Para saber mais sobre o processo da nacionalidade, veja o artigo Quem pode requerer a nacionalidade portuguesa?

Quando existe um casamento registrado em Portugal e um divórcio que nunca foi averbado, essa inconsistência pode gerar uma exigência por parte do IRN (Instituto dos Registos e Notariado), que paralisa o processo até à sua resolução.

O mesmo se aplica a quem pretende requerer a nacionalidade por via do cônjuge ou unido de facto: o estado civil tem de estar devidamente atualizado e coerente em todos os documentos envolvidos.

3.4.    Registos civis e atos notariais

Escrituras, habilitações de herdeiros, contratos que exijam declaração de estado civil, qualquer ato que envolva a identificação formal da pessoa pode ser afetado por esta inconsistência.

Em situações de herança, por exemplo, a falta de registro do divórcio pode complicar significativamente a definição dos herdeiros e dos respetivos direitos.

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4. Quais são as consequências jurídicas de não registrar o divórcio em Portugal?

Não registrar o divórcio estrangeiro em Portugal não é uma questão menor. As consequências podem ser mais sérias do que aparentam.

De forma geral, as situações mais relevantes incluem:

Impedimento de novo casamento. Sem o registro do divórcio, o estado civil português pode indicar que a pessoa ainda está casada. Isso constitui um impedimento legal à celebração de um novo casamento em Portugal.

Inconsistência de estado civil em documentos. Ter o estado civil diferente em documentos de países distintos pode gerar problemas administrativos em múltiplos contextos, desde a abertura de contas bancárias até à celebração de contratos ou à obtenção de vistos.

Atrasos ou bloqueios em processos de nacionalidade. O IRN analisa a coerência documental. Uma inconsistência no estado civil pode gerar uma exigência formal que suspende o processo até ser resolvida, com impacto direto nos prazos.

Complicações em partilhas e heranças. O estado civil tem implicações diretas no direito das sucessões. Uma situação irregular pode complicar processos de herança, tanto em Portugal como no Brasil.

Em todos estes casos, a resolução é possível, mas exige tempo, documentação e, muitas vezes, mais do que um passo para ser concluída.

Poderá verificar também outras situações através do artigo: Erros comuns em processos de nacionalidade portuguesa.

5. A procura crescente e o impacto nos prazos

Nos últimos anos, o número de pessoas com atos civis em mais de um país aumentou de forma considerável.

Brasileiros a viver em Portugal, portugueses com família no Brasil, casais de diferentes nacionalidades.

Estas realidades são hoje muito mais comuns do que eram há uma ou duas décadas.

Com o aumento da procura, cresceu também o volume de processos nas conservatórias portuguesas. E esse volume tem impacto direto nos prazos de resposta.

Um processo de transcrição ou averbamento de divórcio estrangeiro não é, por natureza, um processo urgente para as autoridades, mas pode ser urgente para quem o necessita.

E quando é iniciado de forma precipitada, com documentação incompleta ou incorreta, os atrasos multiplicam-se.

Por isso, este não é um processo para fazer às pressas.

A preparação prévia, reunir a documentação correta, verificar a sua validade e perceber exatamente o que é necessário em cada caso, faz toda a diferença no tempo de resposta e no resultado final.

Divórcio realizado no Brasil vale em Portugal?

6. Conclusão: cada caso exige análise individual

O divórcio realizado no Brasil é válido no Brasil.

Em Portugal, pode exigir um reconhecimento específico para produzir os seus efeitos jurídicos plenos.

Mas a forma como esse reconhecimento se processa, os documentos necessários e os passos a seguir dependem de cada situação concreta.

Há casos mais simples e casos que envolvem etapas adicionais. O que é igual em todos é a importância de perceber, desde o início, qual é exatamente a situação e o que é necessário fazer.

Adiar esta regularização pode parecer inofensivo, até ao momento em que deixa de o ser.

Situações que envolvem atos civis internacionais, como é o caso do divórcio realizado no estrangeiro, podem exigir uma avaliação jurídica específica para perceber o caminho mais adequado a cada caso.

Antes de avançar, seja para um novo casamento, para um processo de nacionalidade ou para qualquer outra situação que envolva o seu estado civil, vale sempre a pena clarificar a sua situação com antecedência.

Porque começar bem, também aqui, é o passo mais importante.

(Vanessa C. Bueno)

[*Fonte das imagens: Unsplash, Pixabay, Pexels]

vanessa@odireitosemfronteiras.com

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